Wednesday, October 19, 2011

Carta à mãe.

Oi Mãe!
Você não quer saber mais de mim, não me manda nem um Voxcard, ra~eoiraeoioerioari. Pois saiba que mesmo sem Voxcards, eu insisto na nossa amizade.
To com saudades de você, e de vez em quando eu lembro que tenho uma irmã (só pra ela parar de chorar pelos cantos).
Ontem eu tomei uma decisão muito complicada, apesar de óbvia. Pela primeira vez eu desisti de alguma meta imposta. Lembro de quando eu tentei desistir de História com Pablo, e não consegui, e vi que foi a melhor decisão. Pensei bem e vi que não era esse o caso, agora.
Desisti da competição que acontece nesse sábado, aquela à qual me dispus a me preparar há algum tempo.
Fiz um milagre preparando o repertório mais difícil que existe para violino - e que me acompanhará por toda a vida - em pouco mais de um mês. Sei que levaria no mínimo anos para fazê-lo, mas consegui, o montei, com muita disciplina, estudo, esforço, dedicação e foco. Sinto-me orgulhoso, me abstive de tudo que pudesse me afetar ou afetar o meu rendimento.
Mas nos últimos dias, além de toda a pressão psicológica de tempo escorrendo pelas minhas mãos, fui abatido por um cansaço descomunal, cansaço mental, cheguei no meu limite.
Lembrei-me de que desde que me formei não tirei férias, ingressei em ritmo de trabalho intenso, físico e intelectual, estive nas experiências mais diferentes da minha vida, as quais tive que me adaptar em velocidades desumanas, tomar decisões a cada instante, decisões difíceis, as quais eu preferi chamá-las de decisões decisivas, RÔÔÔ.
Sem dúvida, o maior desgaste que tive foi de natureza emocional. Brasília é uma cidade má, de pessoas más, de valores maus (quando existentes), descobri onde Laodicéia se situa geograficamente. Nem fria, nem quente, morna, e amarga, muito amarga.
Tem sido a experiência mais valiosa e de bom proveito que já tive, mas tenho pensado se é isso mesmo que quero pra mim. Obviamente que o que vai pesar nessa decisão será meu futuro financeiro. As coisas parecem ter engatado em Brasília, recibe algumas pequenas partes referentes aos trabalhos do primeiro semestre, que já foram suficientes (junto com os outros extras) para recuperar as minhas reservas com as quais vim que me permitiram passar um semestre, e ainda garantir pelo menos mais um ano de estadia. Dinheiro está longe de ser minha preocupação, se ganho o suficiente para um ano e meio em meu primeiro semestre na cidade mais feroz que já conheci (sem dúvida), com meu talento extraordinário para o acúmulo, o qual você conhece tão bem, unido ao mantra que aprendi pelo responsável pelo meu cromossomo Y - "Dinheiro que vai não volta mais" - é só uma questão de tempo para subir ao topo dessa piramide social demente. Não preciso dizer que não tenho o menor desejo de alcançar isso. Com isso, não me restringirei às possibilidades daqui. Penso que Brasília não faz bem para minha personalidade, se eu já me sentia um extraterrestre em Salvador, aqui eu evolui nessa arte. Não me incomodo em não ser aceito, você sabe disso, nunca em incomodou não passar pelo julgamento deficiente de terceiros, me incomoda não conseguir aceitar os outros, eu não posso ser assim, isso não faz bem para o meu interior. E quem julgar será julgado, e isso me incomoda, não quero me tornar o que você mais me criou para que eu não fosse. Tive uma educação de nobre, de nobre cidadão irrepreensível, e na irrepreensibilidade não há espaço para julgamentos e hipocrisia. Se eu não conseguir vencer isso, e logo, Brasília não é e não será o meu lugar.
Tenho pensado em tudo isso, mas coloquei nas mãos de Deus. Ele guiará os resultados, e quanto a localização eu já nem me preocupo. Os resultados que mais me alegram são os do meu estudo, voltando ao assunto da competição, nunca pensei que seria capaz de estruturar um repertório tão complexo.
Eu poderia ter desistido quando me vi diante do ato da inscrição, completamente comprimido pelo tempo, sabendo que só um milagre me faria conseguir competir. Mas não desisti, fui até o último dia, e faltando apenas 2 dias para viagem (tempo limite de reembolso), eu pensei melhor, e me vi numa situação complicada.
Consegui a minha meta, preparar o repertório mais difícil que existe para violino em tão pouco tempo, mas não consegui a minha outra meta, aquela com que nasci e que nas poucas vezes que a deixei de lado, foram situações amargas que me tiraram a alegria por dias ou semanas. Não cumpri com o meu nível de excelência, com a minha exigência nata, paixão pela música sincera, boa e verdadeira. Repleta das coisas que amo. Não se faz música estressado, com medo, inseguro, preocupado e de última hora. Poderia ir competir, POSSO ir competir, mas não, é uma questão de princípios, é profanação de uma missão sagrada, dada a Deus por mim, fazer música como poucos fizeram. Sou apaixonado por isso, nasci para isso, e não vou me deixar me levar por baixos níveis de terceiros para me sentir apto a competir. Das vezes em que caí nesse erro, foi desastroso.
A verdade é que percebi que tudo que tinha de bom para ganhar nessa competição eu já ganhei, a saber: As horas de estudo, a disciplina, a coragem, a fé (acreditei até o último instante), e acima de tudo, a elevação do nível de exigência, só ganhei e se perdi algo foi o apetite, o sono, a cor do corpo (pouco saí de casa), e o que mais me dói, como você me conhece, a oportunidade de estar ganhando dinheiro (abrindo mal do trabalho), mas cá entre nós, isso se chama de investimento, sei que essa experiência me trará milhares de reais, dólares, euros, ienes, libras esterlinas, francos e todas as moedas que serão necessárias para pagar o meu talento e o meu diferencial, uma música feita por um coração que se recheou do que existe de melhor.
Ir em frente na competição seria invalidar tudo isso, e aprendi que parar, que adiar essa vitória eminente, foi uma atitude madura, maturidade tal que nunca tive. Maturidade necessária para parar de errar e alcançar a vitória, de uma vez por todas. Conquistar as coisas como sempre conquistei, com sangue nos olhos, com raça, passando por cima, caindo e levantando, é gostoso, mas não se compara com superar obstáculos pelo bem preparo, não só por força psicológica, mas por eles se encaixarem exatamente onde deveriam estar no espaço cronológico das mais bem planejadas metas, nunca dei tempo ao tempo, cresci muito por isso, mas chegou a hora de ser profissional, de ser sério e de ser respeitoso comigo mesmo, com meus limites, e com o público.
Acredito agora, mais do que nunca no poder do dia, e agora aprendi o poder das longas metas.
Poderia ganhar a competição com um mês e meio de preparo? Poderia sim, com certeza, escolhendo um repertório já estudado e seguindo a receita mais famosa do competidor bem sucedido, indo bem preparado. Quem ganha o concurso não é o melhor violinista, mas o mais bem preparado. Lembrei-me de minha meta, me preparar para o futuro, do contrário nunca teria escolhido um repertório como este, não se eu não estivesse na eminência de tocá-lo magistralmente bem ao primeiro semestre de 2012 (devido ao último mês, meta mais que palpável, e sendo minha obrigação ser excepcional nessa execução, independente de nervosismo, conturbado passado de formação técnica, instrumento ruim, nada disso pode me parar. A vitória não é só eminente, como é óbvia.
Diante de tudo isso, considerar minha vitória, desistência e derrota, é loucura, não só loucura, como imbecilidade mental.
Estou feliz com minha decisão, sinto que foi a melhor possível, e no momento certo, nem antes, nem depois, aproveitei o máximo dessa experiência, e minha única vontade é acordar amanhã e continuar progredindo neste repertório para as próximas experiências e antecipar o que é mais que certo, antecipar meu debut verdadeiramente musical, fazer música como sempre imaginei e sonhei, música com muita música.
Queria ainda agradecer por poder dizer hoje que sou livre, graças a você e meu pai, que me ensinaram a pensar por conta própria, a sofrer as consequências das minhas decisões, a antecipar as consequências, a refletir muito no que eu quero e o que fazer para conquistar.
Desculpa a mensagem gigantesca.
Te amo muito, mãe, obrigado por tudo.

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