Pensando um pouco, me passou ouvir algo realmente denso.
Aquela fome e aquela sede que só um Bach bem tocado poderia matar.
E então veio a dúvida, mas o que ouvir? Sonatas e Partitas para violino solo? Sonatas para clavier e violino? Não... Queria algo ainda mais denso. Me restou duas opções: A arte da fuga e Uma Oferenda Musical. Decidi pela segunda, recorrendo às minhas duas gravações preferidas, uma com órgão e outra com cravo. A com órgão é interessantíssima, mas o intérprete se arrisca bem pouco. Queria ouvir aquela outra gravação que ouvi poucas vezes, talvez duas e há mais de um ano.
Aquela em que o intérprete é de fato um intérprete. Lembrava de ter achado interessantíssimo a maneira como ele manipulava o tempo, de forma tão musical, quase imperceptível, mas que coloria toda a música.
Acho que cheguei na parte mais densa de todo o meu acervo, Musikalisches Opfer com Gustav Leonhardt.
O que não fazia ideia era do efeito colateral...
Tudo corria tão interessante, tão gracioso, com ornamentação realmente refinada. E continuo a ouvir, e de repente começo a sentir algo estranho no peito, e cada vez mais forte, e me sinto cada vez menor, e menor, ao ponto que já não era mais capaz de desligar a música. Fiquei alí na minha impotência diante de uma tortura sacralizada, da qual não conseguia me livrar.
Não sabia se aquilo era bom ou ruim, só sei que não conseguia pensar em outra coisa se não ouvir até o final sem nem lembrar de respirar, completamente arrebatado pela pura arte bachiana.
E a sensação de pó sub-humano tomou conta de mim de uma forma que já sentia vontade de rir pensando: Como isso está acontecendo? Por que estou com essa cara de garoto órfão em dia de natal?
Não sei, só sei que continuo a ouvir toda essa incrível obra, nessa sensação de dejeto.
Comecei a pensar, o que é que esse cara tinha?
Como alguém humano, consegue fazer com que eu sinta isso?
E lembrei da concepção generalizada de Bach no meio artístico: "Revelação musical da onipotência divina".
Já vi até ateus dizerem isso: Se existe um Deus, Ele está presente na música de Bach.
E está mesmo.
Comecei a pensar novamente. Bach é conhecido por ter uma das produções mais vastas da música, sem contar com o triste fato que só conhecemos cerca da metade dela, sendo a outra metade de sua obra perdida no período em que Bach caiu em esquecimento.
Mas isso não quer dizer nada. Me bastava apenas ouvir esta gravação da oferenda musical, mesmo que fosse a única obra deste incrível compositor. E o nome não poderia ser melhor. Uma oferenda musical... Uma oferenda divina em que as migalhas caíram para nós nos envolvermos nessa incrível manifestação da arte pura e genial.
A obra de Bach foi fundamental na minha escolha por essa vida de músico e me mostrou que valeria a pena, não importasse o custo.
E penso, de onde veio toda essa genialidade?
Lembro-me de uma aula incrível com um professor tão incrível quanto, queridíssimo professor de harmonia Flávio Queiroz, que apesar de ter me reprovado (com toda a razão), deixando claro que não aprendi muito de harmonia o que não me deixa tantas mágoas, afinal aprendi muito, mas muito sobre aspectos que considerei mais importantes para a minha formação naquele momento, bebendo do conhecimento desse professor que estimo tanto.
Flávio depois de nos emocionar com uma audição de Bach falou:
"Como é possível? Ora, Bach deixava claro, escrevia Soli Deo Gloria (somente para a glória de Deus) em boa parte das suas obras, não escrevia para homens, mas para Deus. Ora! Para agradar a Deus não há limites, a produção poderia ser sempre melhor."
Como considerar ateu alguém que diz tal coisa? Lembro dele relatando sua crença em outra aula: Já me dediquei a várias crenças, já fui ateu, já não fui, e hoje eu decidi que já não sei mais se existe um Deus e se existir, enfim...
Pois é. Se existir, Ele é descrito em toda a obra de Bach.
Só isso explica o meu sentimento de inferioridade ao ouvir essa música incrível.
E não falo isso como músico, ora como músico, ao ouvir tudo isso, já não posso mais me considerar músico, muito menos estudante de tal ciência.
Mas como humano.
Adapto aqui as palavras de meu querido professor:
Se o sou realmente [humano], já não me importa mais tanto assim.
E somente mais uma última reflexão baseada nas palavras inspiradoras daquela aula, da qual a única coisa que me recordo foi tal afirmação:
"Ora! Para agradar a Deus não há limites."
Se os seres humanos tentassem agradar a Deus, escrevessem em sua vida Soli Deo Glória...
Ahhh, como seria incrível e fascinante estar entre humanos.
Seria com certeza o maior dos orgulhos, ter nascido humano. Um nascimento e entraríamos para os livros de história.
Que o exemplo de Bach continue a ecoar por toda a eternidade.
Soli Deo Gloria.
"Ora! Para agradar a Deus não há limites."
Link para ouvir a tal gravação, completa:
http://www.mediafire.com/file/yyzm0vihzke/Bach_Oferenda Musical_Leonhardt.zip
Friday, May 08, 2009
Subscribe to:
Posts (Atom)