Thursday, September 09, 2010

Genoi hoios essi.

Nos últimos tempos, tenho investido parte do meu dia em tentar compreender algumas situações particulares, situações que passei a considerar que não seria comum às pessoas, visto que nunca vi alguém que pudesse me compreender de fato dentro destas questões, e quando me refiro a me compreender, estou falando de alguém que tenha chegado à mesma conclusão a que cheguei.

Posso dizer que fechei um ciclo da minha vidinha insignificante ao alcançar tais conclusões. Conclusões não concludentes, mas que abre uma gama de horizontes infinitos, aos quais cabe a mim, somente escolher a qual seguir.

Posso dizer que finalmente pude entender, a talvez mais famosa frase de Píndaro. Uma frase que sempre gostei.

"Genoi' hoios essi mathon."

Transcrita por Nietzsche e utilizada como subtítulo de Ecce Homo em tal forma: "Genoi hoios essi " (Torna-te o que tu és).

Posso dizer que a raiz de meus conflitos mais ingênuos (e por conseqüência, os maiores) estavam explanados em tal afirmação. Tornar-me o que sou. Por muito tempo tentei entender o que isso significa. E qual seria a importância disso, e por que já não sou o que sou, ou o que deveria ser?

Entendi que cada um nasce com necessidades diferentes. Com desejos diferentes, e que mesmo com essa banalização da individualidade, com esse bombardeamento massivo de uma opinião, de um estilo, de uma moda, de um "gosto", de um modo de vida... Mesmo com tudo isso, cada um tem a sua necessidade básica de suprir a sua individualidade, seja ela qual for. Mas o que tenho visto é o oposto, pessoas tentando suprir seu vazio particular com o que é lançado a ela, a saber, consumo e sexualidade obsessiva (sendo este último, nada mais que outra forma de consumo).

De alguma forma, não sei se por não ter aderido ao que me foi imposto, não tendo pelo qual ser entorpecido, um vazio estranho me perseguiu. Mais estranho que o próprio vazio, foi o fato de me permitir conviver com ele por anos.

Então de alguma forma, brechas luminosas de consciência vinham caindo sobre mim nos últimos tempos, sendo somente compreendida de forma prática, ontem.

Me vi órfão, sem ser o que sou, até tendo esquecido de fato o que sou e o que queria ser. Sem aproveitar dos entorpecentes do mundo, não consumindo ou me auto-consumindo, em larga escala para calar os meus profundos desejos de ser o que deveria ser.

Conclui que inconscientemente estive sempre diante ao seguinte impasse: Curar o ferimento ou anestesiar a dor?

Algo simples de decidir, não? Tão simples que não pensamos o bastante e decidimos errado.

Por muito tempo decidi errado, tentei anestesiar a dor com coisas que nunca me completaram. Ora, se algo foi feito para que milhões ou bilhões de pessoas gostassem, posso concluir que não foi feita para mim. Sim, sou especial, e não é esse especial que todo mundo é... Sou especialmente especial.

Essa é a única explicação para como cheguei a tal situação, e negar isso me fará continuar errando por toda a vida.

Tentei jogar o jogo como todo mundo joga. Tentei, juro. Mas nem ao menos cheguei perto de conseguir. Existia uma barreira que nunca me habilitou permitir a viver levianamente, por mais que eu tentasse e insistisse... E insisti.

Ia contra à minha natureza, logo percebi que nesse jogo da vida que todo mundo joga, eu sou café-com-leite.

Se a vida leviana torna a sobrevivência suportável para todos, por que não poderia fazer o mesmo por mim?

Descobrir que não sou "todo mundo" foi imprescindível.

Agora entendo porque fazia mais sentido ficar em casa ouvindo minhas músicas, lendo, comparando gravações, pesquisando, descobrindo, aprendendo, refletindo, desenvolvendo, do que sair pra curtição, mesmo quando estava afim de uma curtição.

Agora sei o que responder quando me perguntarem como eu consigo viver desta forma... É simples: Eu sou assim. Nem melhor nem pior que ninguém, mas diferente.

Percebo que cheguei a essas conclusões devido às minhas condições inatas que me fazem ser o que sou. Minha percepção aguçada, capacidade de conexão entre as idéias, facilidade de aprendizagem, tendência à profunda reflexão, prazer no auto-cultivo, aversão ao efêmero. Mas não só por essas qualidades (ou maldições a quem divide tal experiência comigo, só nós sabemos como isso pode ser ruim)... O que sobra de um lado, falta do outro.

Ao tentar viver a vida como pessoa normal, tendo amigos normais, e fazendo coisas normais, percebi que sou extremamente ruim nisso, me faltava muitas coisas simples, como saber conversar coisas normais, bom senso (quem me conhece, concorda), fazer coisas da forma como todo mundo faz, fazendo do "porque todo mundo faz" um motivo suficiente para a reprodução. Me falta a capacidade de ser razoável, de ser equilibrado no modo de pensar. Tal intolerância e extremismo, me faziam ser incapaz de suportar uma vida mais ou menos, ter amizades mais ou menos, devido ao fato de que sempre me foi difícil de agüentar uma conversa mais ou menos. Esse último ponto sim, esse atrapalhou muito minha vida. Eu queria ser capaz de agradar pessoas normais. E nunca consegui, me sentia a pessoa mais incompetente do mundo. Eram pessoas que se agradavam com tudo, com qualquer coisa... Mas eu não agradava. Então de tanto tentar, percebi que até poderia agradar se eu ligasse alguns botões de repetição do que vejo, que era uma faculdade habilidade que poderia ser desenvolvida, até que percebi duas coisas:

1. Elas não me agradavam.

2. Eu não me agradava quando agia de tal modo.

Sim, aí está o motivo porque o anestésico nunca funcionou em mim. Me incomodava muito ser daquele jeito, me apavorava o pensamento de que eu talvez passasse a ser assim, raso, de que isso se incorporasse ao que sou. Eu era alérgico a esse tipo de conduta... Tal anestésico tinha reações adversas em mim. Nunca pude sentir seu real efeito.

Agora eu já havia percebido que isso eu não poderia ser. Que nunca agradaria os outros sendo o que sou; que quando os agradava, eles não me agradavam; e que não me agradaria sendo o que os agradava, uma vez que não seria eu.

Era hora de investir em outra coisa... Ser eu mesmo. Mas o que eu era/sou?

Antes de tentar responder isso, tenho que lembrar de Píndaro: "Genoi' hoios essi mathon."

Mas por que Nietzsche transcreveu esta frase e utilizou como subtítulo de sua auto biografia omitindo a palavra "mathon"?

A verdade é que a palavra mathon dá um pressuposto de conhecimento: "Conhece-te e torna-te o que tu és."

Sendo o tornar-se, conseqüência do conhecer-se.

Acho que agora entendo porque Nietzsche omitiu, entendo por diagnosticar isso em mim. Eu não sabia o que era, e talvez ainda esteja aprendendo. Mas a partir do momento que tentei tornar-me o que sou, passei a me conhecer melhor.

Nietzsche não entra em explanação sobre qual seria o motivo de ter omitido tal palavra, mas posso dizer uma coisa, eu teria feito o mesmo.

Ora o que sou? Sou alguém que não consegue estar satisfeito sem preencher às próprias necessidades. Bem, isso todo mundo é, acredito. Então "o que sou" passa a ser o conjunto de necessidades que tenho, e essas sim se diferem? Se estiver certo, agora posso argumentar de forma que ninguém poderá negar que sou especial, especialmente especial... Sim, me incluo nas necessidades especiais de qualquer lugar. Nunca vou sobreviver com o tratamento geral.

Para que eu nunca me esqueça, estas são:

1. Intimidade forte, profunda, prática, real e constante com Deus. Sem isso todo o resto não faz sentido. Meu alimento diário.

2. Respirar música... Posso encontrar uma fonte alternativa de oxigênio, mas nenhuma seria tão interessante como a arte, a saber, a melhor delas, a música, a única que todo mundo gosta, seja lá qual for o seu tipo. Estou para encontrar alguém que odeie música, em pensar que se eu não tivesse encontrado a música certa, essa pessoa seria eu... Só existe um tipo de música que me interessa mais do que o silêncio... A música sincera, feita de coração, não para agradar a todos, nem para tocar sem parar durante 3 semanas em todo lugar e nunca mais ser ouvida, mas para tornar a minha sobrevivência uma experiência mais interessante... Pra me fazer esquecer de dormir, de comer, de sair de casa, pois nada disso se torna interessante o bastante quando me encontro com ela. É quando tudo se encaixa.

3. Pesquisar, descobrir, explorar, aprender, refletir. Me cultivar, me desenvolver: Intelectualmente, emocionalmente, espiritualmente, fisicamente. Sem isso, a vida se torna repetitiva, quase tediosa.

4. Estar com as companhias certas. Sim. Aquelas pessoas que agrado sem querer agradar. Que me agradam sem quererem me agradar. Que existe um magnetismo, uma força de atração, independente de interesse, independente de um motivo para estar juntos. Pessoas que me levam a buscar todos os outros pontos acima, pessoas que me ajudaram a concluir tudo que foi escrito neste texto. Resumindo, quem insistiu em ler esse texto até o final. Sim, estes são (ou poderiam ser serão...) meus grandes amigos pra vida toda. Sim... Ninguém suporta ler um texto como esse, se não houver afinidade, de fato.

5. E por último, mas não menos importante: Leite condensado. Uma das maravilhas da ciência moderna. 10 colheres de sopa de açúcar, um copo grande de leite em pó, meio copo de água fervendo e uma colher de margarina sem sal. Bata tudo no liquidificador, leve à geladeira por mais ou menos quatro horas e se prepare psicologicamente para a experiência gastronômica mais inspiradora conhecida pelo homem.

Oh, leite condensado, como eu te amo. s2

Finalizando, agora que serei eu mesmo, e não mais lapsos de Felipe envoltos a uma personalidade misteriosa até para mim, devo passar a escrever mais (ou não, a preguiça é minha mesma). Cansei de ser eu mesmo uma vez por ano.